INFÂNCIA E A BRINCADEIRA: Consumismo, influência da
mídia, compromissos, precocidade e o papel do adulto.
André Luis L. de E. Fagundes
Felipe Silva Dantas
Vive-se
em uma sociedade capitalista, que é marcada pelo consumo desenfreado de
mercadorias, as quais giram a máquina do capital e da produção de bens de
consumo, os mais variados possíveis e imagináveis. Para o consumismo
avassalador que notamos, a mídia é a melhor ferramenta para que este consumo se
consolide.
A
mídia televisiva entra em cena com diversas formas de afetar adultos e
crianças, publicidades bem coloridas, com pessoas bonitas, com diversão e
animações, mexendo com o imaginário de adultos e crianças, levando-as a
consumir. O consumo assim se torna muito além do que o necessário para sua
sobrevivência, mas algo que a estabeleça em determinados grupos sociais, que
ligado à competitividade, faça do mero prazer de comprar, sua maior satisfação.
É
possível demonstrar que a maior parcela do consumo de uma casa, parte das
crianças, que por esse motivo, são o alvo das publicidades televisivas. Mas por
que as crianças são tão atingidas pela mídia? Por que a televisão interfere
tanto na educação da criança e por que os pais não vão contra o consumo
desenfreado dos pequenos?
Tentando
responder essas perguntas, devemos notar que o tempo que a criança fica a
frente da televisão é extremamente longo, sendo a televisão utilizada como uma
babá, como um mecanismo comportamental, onde a criança ficaria quieta, podendo
assim os pais não se preocupar ou poderem descansar. Tendo em vista esta
realidade, as propagandas, os personagens televisivos etc., servem de modelo e
referência para estas crianças, que irão reproduzir hábitos e gostos dos seus
“heróis”.
Teríamos
em contra partida, o papel da escola nestas questões, que deveriam trazer a
consciência do consumismo para foco, com um papel crítico e problematizador,
mas que como instrumento social, segue no barco da “cegueira” e ignora esta
questão, e até mesmo a incentiva de forma ingênua. Em datas consideradas
comemorativas, onde se vincula o consumismo, vemos grande parte das
instituições valorizando a compra de “coisas”, e até mesmo presenteando as
crianças com produtos de beleza (maquiagem infantil, batons etc.) e produtos
diferenciados para meninos e meninas. A escola opera como uma mera reprodutora
das práticas sociais instaladas, assim também uma mera reprodutora do
capitalismo.
Essas
práticas sociais são vistas no “amadurecimento” precoce das crianças, dos
preconceitos gerados contra elas mesmas, por terem de estar adequadas a uma
criação de padrão de beleza. Não é difícil observar meninas deixando de brincar
e querendo vivenciar uma juventude antes da hora, carregada em maquiagens
dignas a misses, carregando bolsas com seus batons e celulares, ao invés de um
brinquedo e a vontade de brincar, ou meninos que querem demonstrar que são
jovens, mini adultos deixando de brincar de várias brincadeiras, pois são ditas
como de crianças. Cada vez mais temos crianças querendo vivenciar a fase da
adolescência, adolescentes querendo ser adultos, enquanto os adultos adorariam
voltar para a infância, onde dispunha de certo tempo para poder brincar.
Algumas
outras práticas sociais históricas também fortalecem a criação de padrões,
quando temos brinquedos de carros, armas, bonecos de ação etc., para meninos,
enquanto as meninas ganham brinquedos que reproduzem o cuidado com a casa, com
a beleza e com o ato de serem mãe e importância de cuidar de crianças. Práticas
que são perpetuadas, mesmo com todas as conquistas do feminismo no decorrer da
história humana.
Não
podemos deixar de salientar que, referente ao tempo para brincar, os pais ou
responsáveis pelas crianças vão embutindo na rotina das crianças inúmeras
atividades, como natação, inglês, informática, ballet, futebol, reforço
escolar, redação etc., ou seja, o tempo para brincar vai se exaurindo, a
criança passa a ter uma quantidade de afazeres que os próprios pais reclamam em
suas vidas. E, por mais que possa considerar o ballet, o futebol, a natação ou
outro esporte como uma brincadeira, pode-se lembrar que geralmente ele são
cobrados como necessidades e serem bem feitos, como se tivesse que conseguir
realizar o sonho dos responsáveis, ou que aquilo vá ser o “ganha pão” da
criança. É necessário brincar para se divertir, sem cobranças.
Os
pais, professores e adultos próximos às crianças podem trabalhar como mediadores,
procurando trazer todas as mensagens que estão embutidas nas publicidades,
evitando que as mesmas entrem na escola, em casa, ou na rotina da criança e
possam façam parte da vida das mesmos, emancipando-as para que possam
identificar tais práticas e julgá-las, podendo assim alterar sua realidade.
Como
professor de educação infantil, posso relatar que essa primeiro nível da
escolarização possui os mesmos enfrentamentos dos outros níveis de ensino, e o
papel do professor demonstra até mesmo ir além, pois o que notamos nesta faixa
etária, é o desconhecimento de brincadeiras por parte das crianças e a falta de
contato com atividades, as quais grande parte dos pais relatam terem feito
parte de sua infância, piques, queimado, rodas, amarelinhas, galinha choca,
banho de mangueira, disputa de corrida etc. Se essas atividades fizeram parte
da infância dos pais, por que os mesmos não apresentam para seus filhos? Por
que os pais reclamam do interesse da criança pela televisão e por aparelhos
eletrônicos?
Encontramos,
portanto, uma supervalorização dos brinquedos comprados, eletrônicos frente aos
brinquedos construídos pelas próprias crianças, ou brincadeiras em grupo etc. A
sociedade prega um individualismo e competitividade, esses, entre outros
fatores agregam a ideia do brincar só. Esses outros fatores podem ser encarados
pela violência existente e difamada pela mídia já citada, onde, então, o medo
domina não permitindo que as crianças brinquem nem mesmo em frente a sua casa,
ou no prédio do amigo etc. Enclausuradas em pequenas casas, apartamentos etc.,
em locais ditos violentos, as crianças ficam presas, sendo enxertadas por
brinquedos que as distraiam, que tomem seu tempo, que não precise do outro, nem
sequer para ensiná-las a brincar. Assim, videogames, celulares, tablets,
computadores e amigos virtuais são as grandes companhias das crianças, por
vezes educadores e na grande maioria, como já dito, babás. Infâncias que vão
passando sem vivenciarem a brincadeira em sua essência, o contato com o outro,
com a criação, a ludicidade etc.
É
preciso saber o que é infância, e que esse conceito até o século XVII não era
valorizado, a criança era vista como um pequeno adulto, se vestiam e possuíam
hábitos tais quais os adultos. A partir do século XVII que devido a reformas e
novas visões em relação à criança, que a mesma foi sendo valorizada, estudada e
tendo um espaço particular dentro da sociedade, como um ser em formação e
necessário de respeito e instituições que atendessem e entendessem o pensamento
infantil.
Fortuna (2003), comentando o estudo de
Phillipe Ariès, nos remete a um conceito de infância, o qual “a infância é,
pois, uma criação da sociedade sujeita a mudar sempre que surgem transformações
sociais mais amplas, o que põe em evidência a importância do mundo social na
conformação do sujeito”. Nota-se que a infância sofre influência da sociedade,
portanto altera-se de acordo com o momento e local social o qual a criança está
inserida. Assim, crianças de diferentes classes sociais e períodos históricos,
possuem infâncias distintas, tendo as mesmas, a ausência da família, influência
da mídia e diversos fatores que lhe ocupam o tempo em que deveriam estar
interagindo e brincando com os amigos.
Conclui-se
então, que a cultura e sociedade interferem no que é ser criança, e vivemos em
uma cultura que não valoriza o brincar, que não valoriza a interação com o
outro e as atividades em grupo etc. O adulto, como membro da sociedade e motor
da mesma, é a principal influência para os pequenos, e como referência que é,
deve estar atento para o que transmite, assiste e o que propõe. Portanto os
adultos influenciando e sendo influenciados, devem pensar e medir suas
atitudes, não deixando que a infância seja um ensaio da juventude ou da fase adulta,
voltando de ré na história.
Muito bom meninos. Ótima reflexão trazida pelo texto de vocês.
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