sábado, 4 de junho de 2016

BRINCADEIRA OU MALDADE.

André Luis L. de E. Fagundes
Felipe Silva Dantas

Toda brincadeira é válida?
Partindo dessa pergunta que vamos entrar em um assunto que causa inúmeras problematizações e grandes discussões. Até que ponto a brincadeira deixa de ter validade e se torna uma maldade? Essa é uma das intenções desse texto, diferenciar o brincar da “zoeira”, ou seja, o ato de zoar, praticar o tal famoso bullying ou agredir alguém para sua própria diversão ou de um grupo. Ou seja, praticar uma violência em prol da alegria de um grupo ou apenas uma pessoa. Será que realmente é válido realizar uma brincadeira para se divertir, faltando com o respeito com o próximo?
Antes de começarmos a explanar sobre o assunto, vamos buscar o significado das palavras zoar, brincar e bullying, para diferenciarmos ambas e mostrarmos que existe uma relação próxima entre bullying e zoeira, mas que também se confunde alguns dos possíveis significados de zoar com o brincar, o que para muitos, valida o ato de zoar como uma simples brincadeira, sem pensar o que pode estar por detrás de tal ato, ou o que pode gerar na pessoa que sofre tal ação.
Segundo o dicionário informal online (http://www.dicionarioinformal.com.br), zoar tem alguns significados, como por exemplo: “1. Fazer bagunça, atrapalhar, encher o saco. 2. Tirar sarro de alguém, debochar. 3. Brincar, se divertir.” Como podemos observar, zoar pode ser encontrado como um sinônimo de brincar, como usado pelo exemplo do próprio dicionário informal, “Vem aqui em casa zoar com a gente!/ Brincar, se divertir com a gente.” Mas como podemos observar, zoar não é só sinônimo de brincar, de se divertir, mas de tirar sarro, encher o saco, debochar, atrapalhar, bagunça etc., ou seja, existe uma linha tênue entre o brincar e o zoar, pois nem sempre quando se zoa está somente brincando, pois pode estar maltratando, ou praticando bullying com alguém, que é um tipo de violência, como podemos observar no significado da palavra.
Bullying, segundo a revista Nova Escola da editora Abril, podendo ser vista a reportagem em http://revistaescola.abril.com.br/formacao/bullying-escola-494973.shtml nos apresenta definições sobre o ato do Bullying, que seria “uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas.” De acordo com o surgimento do termo, a palavra bullying vem da palavra inglesa bully, que significa brigão ou valentão, do ato de tiranizar, oprimir, amedrontar, ameaçar, humilhar e maltratar.
Desta forma, temos a na zoeira uma forma que pode ser de brincar, porém que pode ou vá afetar o outro, maltratando, debochando, humilhando, ou seja, praticando bullying, oprimindo e violentando a pessoa que sofre.
Mas como dito anteriormente, vamos buscar significado para o brincar, o que seria o brincar, será que entre os significados de brincar vamos encontrar o ato de zoar? Segundo o dicionário Michaelis da UOL, brincar tem os diversos significados, entre eles, de divertir-se, infantilmente e ludicamente (exercendo o papel ou atividade de), entreter-se; folgar, foliar, não levar as coisas a sério; galhofar, zombar, ataviar. Portanto, encontramos a palavra zombar, que segundo o google pode significar “fazer caçoada por brincadeira ou para provocar.” De certo, zoeira, zombaria e brincadeira podem ser confundido por meio dos significados, desta forma, alguém pode provocar o outro, achincalhá-lo, caçoá-lo, tirar sarro ou encher o saco do outro brincando, porém, o que então vai definir essa linha que cruza os significados das palavras não é o português, mas o respeito.
Então, para podermos continuar esse assunto precisamos entrar no mérito da ofensa, da falta de respeito, da agressão, dos mal tratos, da humilhação, da opressão etc., de uma gama de palavras que evidenciam a violência e o preconceito. Mas porque preconceito? Talvez você possa estar se questionando sobre isso, então vamos refletir sobre as pessoas que geralmente sofrem o bullying ou a zoeira.
“Chupeta de baleira”, “rolha de poço”, “baleia”, “bola 7”, “rei momo”, “bola de sebo” entre outros, esses são apenas alguns dos “apelidos” que as pessoas acima do peso sofrem geralmente de pessoas mais magras do que elas. Será que ser magro é ser superior e te dá o direito de humilhar o outro?
“Viadinho”, “mão mole”, “que agasalha o croquete”, “morde fronha”, “queima rosca”, “engole cobra”, “gazela”, “cola velcro”, entre outros, são “apelidos aferidos aos homossexuais, mas deixo a mesma pergunta, será que ser heterossexual é ser superior e te dar o direito de oprimir, achincalhar e humilhar o outro por ser diferente?
“Chup chup de petróleo”, “macaco”, “comedor de banana”, “azulão”, “grande pássaro”, “boneco de vudu”, “blackout”, “suco de pneu”, “luto eterno”, “zé gotinha da Petrobrás”, “escravo”, “pé na senzala”, entre tantos outros “apelidos” servem para desmerecer e humilhar os negros, mas será que ser branco te dá esse direito?
O que podemos perceber é que quando se foge a determinado padrão, automaticamente se corre o risco de sofrer apelidos humilhantes, ora, isso é preconceito. Isso é relação de poder, isso é opressão. Vamos falar um pouquinho de preconceito, mas sem querer fugir do tema.
sm (pre+conceito) 1 Conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados. 2 Opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão. 3 Superstição que obriga a certos atos ou impede que eles se pratiquem. 4 Sociol Atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos. P. de classe: atitudes discriminatórias incondicionadas contra pessoas de outra classe social. P. racial: manifestação hostil ou desprezo contra indivíduos ou povos de outras raças. P. religioso: intolerância manifesta contra indivíduos ou grupos que seguem outras religiões. (Michaelis, em 23/04/2014)
Alguns dizem que as pessoas nascem com seus preconceitos, ou seja, o preconceito seria inato ao homem, contudo podemos até aceitar esse comentário como mais um fator, pois é notória a aversão do homem com o desconhecido, ou com o que não faz parte do seu convívio, dito estranho a si. Porém, traçando esse tipo de pensamento, logo se quisermos nos aprofundar, e pensarmos que o homem é um ser histórico-sócio-cultural, como propôs Vygotsky em seus estudos, impregnado de conceitos, comportamentos e saberes pré-estabelecidos por seus antecessores e pela cultura dominante, iremos notar que preconceito é uma prática social, portanto impregnada e perpassada pelas relações sociais.
Uma cultura autoritária e padronizada, que valoriza o homem, heterossexual, branco, europeu ou norte-americano, rico etc., logo o que não condiz com essa realidade é considerado estranho ou fora do padrão considerado dominante. Será então que a zoeira não estaria ligado ao preconceito? Nós cremos que sim.
Mas muitos vão falar que é apenas uma brincadeira, que hoje em dia tudo é preconceito, que estamos aumentando etc. Ora, se vai faltar com o respeito, humilhar o outro, tentar diminuí-lo por uma característica é sim uma maldade e pode causar severos danos àquela pessoa. Por detrás dessas brincadeiras sempre há um fundo de verdade e, geralmente quando querem ofender o outro, o que antes era brincadeira vira ofensa, ou seja, até que ponto você pode dizer que isso é uma brincadeira ou uma ofensa, lógico que devemos sempre analisar o contexto, mas mesmo que possa demonstrar uma brincadeira, é algo desnecessário e que pode magoar, deprimir, estigmatizar e gerar uma posição de auto-preconceito.
Muitas pessoas precisam de tratamentos longos e dolorosos com psicólogos, psiquiatras etc., devido a não se sentirem bem recebidas, vistas, por sofrerem esses tipos de brincadeiras etc. Muitas entram em depressão, se afastam, se exilam e até mesmo tentam a morte por não se sentirem aceitas, por levar isso em consideração e não se aceitarem e conseguirem suportar o preconceito e humilhação diária.
Então amiguinhos, vamos pensar duas vezes antes de fazer esse tipo de brincadeira, vamos pensar até que ponto a zoeira é brincadeira, até que ponto a zoeira vira violência. Devemos respeitar o próximo como queremos que o outro nos respeite. Você gostaria de ser chamado de macaco, viadinho, bola de sebo, manco, ou qualquer outra coisa que te deprecie? Você gosta de ser humilhado na frente dos outros? Você gosta de ouvir que lugar de mulher é no tanque? Você gosta de ser estereotipado somente por uma característica, de ser generalizado, de ser humilhado, de não ser reconhecido por todo seu valor?
Acha certo “brincar” de jogar água em um mendigo? Imitar que está comendo banana para um negro? Bater em uma pessoa porque ela é quieta ou com menor porte físico? Excluir a pessoa de algum esporte por ela ser gorda? Pense, reflita, essa violência é constante em nossa sociedade. Será que essas “brincadeiras” não reforçam o preconceito, a exclusão, a segregação etc.?
Já chega de tanta maldade escondida por trás de boas intenções. Se queremos um mundo mais legal, vamos brincar, mas com a certeza que em tudo que fazemos nessa vida dessa estar permeado pelo amor, pelo respeito, pela solidariedade e pelos princípios éticos e fundamentais para vivenciarmos um mundo melhor.

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