sábado, 4 de junho de 2016

INFÂNCIA E A BRINCADEIRA: Consumismo, influência da mídia, compromissos, precocidade e o papel do adulto.

André Luis L. de E. Fagundes
Felipe Silva Dantas

Vive-se em uma sociedade capitalista, que é marcada pelo consumo desenfreado de mercadorias, as quais giram a máquina do capital e da produção de bens de consumo, os mais variados possíveis e imagináveis. Para o consumismo avassalador que notamos, a mídia é a melhor ferramenta para que este consumo se consolide.
A mídia televisiva entra em cena com diversas formas de afetar adultos e crianças, publicidades bem coloridas, com pessoas bonitas, com diversão e animações, mexendo com o imaginário de adultos e crianças, levando-as a consumir. O consumo assim se torna muito além do que o necessário para sua sobrevivência, mas algo que a estabeleça em determinados grupos sociais, que ligado à competitividade, faça do mero prazer de comprar, sua maior satisfação.
É possível demonstrar que a maior parcela do consumo de uma casa, parte das crianças, que por esse motivo, são o alvo das publicidades televisivas. Mas por que as crianças são tão atingidas pela mídia? Por que a televisão interfere tanto na educação da criança e por que os pais não vão contra o consumo desenfreado dos pequenos?
Tentando responder essas perguntas, devemos notar que o tempo que a criança fica a frente da televisão é extremamente longo, sendo a televisão utilizada como uma babá, como um mecanismo comportamental, onde a criança ficaria quieta, podendo assim os pais não se preocupar ou poderem descansar. Tendo em vista esta realidade, as propagandas, os personagens televisivos etc., servem de modelo e referência para estas crianças, que irão reproduzir hábitos e gostos dos seus “heróis”.
Teríamos em contra partida, o papel da escola nestas questões, que deveriam trazer a consciência do consumismo para foco, com um papel crítico e problematizador, mas que como instrumento social, segue no barco da “cegueira” e ignora esta questão, e até mesmo a incentiva de forma ingênua. Em datas consideradas comemorativas, onde se vincula o consumismo, vemos grande parte das instituições valorizando a compra de “coisas”, e até mesmo presenteando as crianças com produtos de beleza (maquiagem infantil, batons etc.) e produtos diferenciados para meninos e meninas. A escola opera como uma mera reprodutora das práticas sociais instaladas, assim também uma mera reprodutora do capitalismo.
Essas práticas sociais são vistas no “amadurecimento” precoce das crianças, dos preconceitos gerados contra elas mesmas, por terem de estar adequadas a uma criação de padrão de beleza. Não é difícil observar meninas deixando de brincar e querendo vivenciar uma juventude antes da hora, carregada em maquiagens dignas a misses, carregando bolsas com seus batons e celulares, ao invés de um brinquedo e a vontade de brincar, ou meninos que querem demonstrar que são jovens, mini adultos deixando de brincar de várias brincadeiras, pois são ditas como de crianças. Cada vez mais temos crianças querendo vivenciar a fase da adolescência, adolescentes querendo ser adultos, enquanto os adultos adorariam voltar para a infância, onde dispunha de certo tempo para poder brincar.
Algumas outras práticas sociais históricas também fortalecem a criação de padrões, quando temos brinquedos de carros, armas, bonecos de ação etc., para meninos, enquanto as meninas ganham brinquedos que reproduzem o cuidado com a casa, com a beleza e com o ato de serem mãe e importância de cuidar de crianças. Práticas que são perpetuadas, mesmo com todas as conquistas do feminismo no decorrer da história humana.
Não podemos deixar de salientar que, referente ao tempo para brincar, os pais ou responsáveis pelas crianças vão embutindo na rotina das crianças inúmeras atividades, como natação, inglês, informática, ballet, futebol, reforço escolar, redação etc., ou seja, o tempo para brincar vai se exaurindo, a criança passa a ter uma quantidade de afazeres que os próprios pais reclamam em suas vidas. E, por mais que possa considerar o ballet, o futebol, a natação ou outro esporte como uma brincadeira, pode-se lembrar que geralmente ele são cobrados como necessidades e serem bem feitos, como se tivesse que conseguir realizar o sonho dos responsáveis, ou que aquilo vá ser o “ganha pão” da criança. É necessário brincar para se divertir, sem cobranças.
Os pais, professores e adultos próximos às crianças podem trabalhar como mediadores, procurando trazer todas as mensagens que estão embutidas nas publicidades, evitando que as mesmas entrem na escola, em casa, ou na rotina da criança e possam façam parte da vida das mesmos, emancipando-as para que possam identificar tais práticas e julgá-las, podendo assim alterar sua realidade.
Como professor de educação infantil, posso relatar que essa primeiro nível da escolarização possui os mesmos enfrentamentos dos outros níveis de ensino, e o papel do professor demonstra até mesmo ir além, pois o que notamos nesta faixa etária, é o desconhecimento de brincadeiras por parte das crianças e a falta de contato com atividades, as quais grande parte dos pais relatam terem feito parte de sua infância, piques, queimado, rodas, amarelinhas, galinha choca, banho de mangueira, disputa de corrida etc. Se essas atividades fizeram parte da infância dos pais, por que os mesmos não apresentam para seus filhos? Por que os pais reclamam do interesse da criança pela televisão e por aparelhos eletrônicos?
Encontramos, portanto, uma supervalorização dos brinquedos comprados, eletrônicos frente aos brinquedos construídos pelas próprias crianças, ou brincadeiras em grupo etc. A sociedade prega um individualismo e competitividade, esses, entre outros fatores agregam a ideia do brincar só. Esses outros fatores podem ser encarados pela violência existente e difamada pela mídia já citada, onde, então, o medo domina não permitindo que as crianças brinquem nem mesmo em frente a sua casa, ou no prédio do amigo etc. Enclausuradas em pequenas casas, apartamentos etc., em locais ditos violentos, as crianças ficam presas, sendo enxertadas por brinquedos que as distraiam, que tomem seu tempo, que não precise do outro, nem sequer para ensiná-las a brincar. Assim, videogames, celulares, tablets, computadores e amigos virtuais são as grandes companhias das crianças, por vezes educadores e na grande maioria, como já dito, babás. Infâncias que vão passando sem vivenciarem a brincadeira em sua essência, o contato com o outro, com a criação, a ludicidade etc.
É preciso saber o que é infância, e que esse conceito até o século XVII não era valorizado, a criança era vista como um pequeno adulto, se vestiam e possuíam hábitos tais quais os adultos. A partir do século XVII que devido a reformas e novas visões em relação à criança, que a mesma foi sendo valorizada, estudada e tendo um espaço particular dentro da sociedade, como um ser em formação e necessário de respeito e instituições que atendessem e entendessem o pensamento infantil.
 Fortuna (2003), comentando o estudo de Phillipe Ariès, nos remete a um conceito de infância, o qual “a infância é, pois, uma criação da sociedade sujeita a mudar sempre que surgem transformações sociais mais amplas, o que põe em evidência a importância do mundo social na conformação do sujeito”. Nota-se que a infância sofre influência da sociedade, portanto altera-se de acordo com o momento e local social o qual a criança está inserida. Assim, crianças de diferentes classes sociais e períodos históricos, possuem infâncias distintas, tendo as mesmas, a ausência da família, influência da mídia e diversos fatores que lhe ocupam o tempo em que deveriam estar interagindo e brincando com os amigos.

Conclui-se então, que a cultura e sociedade interferem no que é ser criança, e vivemos em uma cultura que não valoriza o brincar, que não valoriza a interação com o outro e as atividades em grupo etc. O adulto, como membro da sociedade e motor da mesma, é a principal influência para os pequenos, e como referência que é, deve estar atento para o que transmite, assiste e o que propõe. Portanto os adultos influenciando e sendo influenciados, devem pensar e medir suas atitudes, não deixando que a infância seja um ensaio da juventude ou da fase adulta, voltando de ré na história.

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